sábado, 4 de julho de 2009

A Tradição e a Submissão





"Talvez a humanidade, ao rebelar-se contra a tradição e a autoridade, tenha cometido um erro gravíssimo; erro esse que não será menos fatal porque a corrupção dos investidos de autoridade o tornou perfeitamente justificável."




C.S. Lewis - Milagres - Um estudo preliminar








Se formos sinceros teremos que admitir: NINGUÉM gosta de se submeter... até mesmo aqueles que sentem algum tipo de prazer desequilibrado em ser submisso, em algum momento põem as garras para fora e dizem: "Hei! Já chega! Cansei de me submeter!"
A humanidade, por outro lado, de um modo geral, sempre viveu bem com a idéia de ser submissa. A massa, o povão, nunca achou ruim ser controlado por um líder. Às vezes surgiam umas revoltas aqui, outras ali, mas no fim, essas revoltas não serviam para acabar com a liderança em si, mas sim com algum líder indesejado. Matavam-se reis, usurpavam-se tronos, conspirava-se contra a tirania, conspirava-se contra a democracia, mas no fim das contas, assim que um líder era cortado, outro surgia naturalmente.
A submissão era o meio pelo qual a religião e a política seguiam os mesmos parâmetros por longos períodos de tempo, ou então sofriam mudanças de forma rápida. Se o poder político e/ou religioso se concentrava nas mãos de poucos, então não era necessário ocorrer uma mudança em cada homem sobre a terra para que o sistema fosse modificado, ou confirmado. Bastava apenas mudar a mente dos poucos detentores do conhecimento e estava feito, as alterações ou confirmações de todo um sistema, seriam rapidamente passadas para a massa como lei/dogma, e não haveriam grandes discussões.
Assim, se por um lado, a tradição e a autoridade inquestionável, garantiam que bons valores, e bons métodos se perpetuassem seguramente, por outro lado, tornava possível a corrupção rápida e implacável desses mesmos valores e métodos.
Quando a humanidade começou a perceber as desvantagens da tradição/autoridade, surgiram pensadores que levaram o povo, a massa, à uma revolta, à uma mudança, extremamente necessária, mas ao mesmo tempo, extremamente perigosa. Para esses pensadores, o homem não poderia ter seus pensamentos guiados por outros. Esses pensadores nos ensinaram a descobrir a verdade pessoalmente, e com métodos pessoais. Isso trouxe uma liberdade jamais experimentada pelos homens, mas também trouxe uma era onde até mesmo a mais simples verdade, sobre um fato corriqueiro qualquer, tornou-se praticamente desconhecida.
Milhares de milhares falam das mesmas coisas, mas com interpretações diferentes. É extremamente importante exercitarmos nossa mente, nosso raciocínio. Mas nem todos os homens são capazes de carregar essa responsabilidade. Alguns homens vivem em circunstâncias, onde tudo o que podem saber é o que ouvem, e simplesmente estão impossibilitados de verificar se é verdade ou não o que ouvem todos os dias.
O fato de milhares de pessoas acreditarem que a Verdade é diferente para cada um, por isso cada um tem a sua e não pode interferir na do outro, não torna a Verdade menos real, menos forte, menos exata, e menos distinta de qualquer coisa que lhe seja contrária. A Verdade sempre será a mesma, nela não há sombra de variação e nem qualquer distorção.
Não importa o quanto eu acredite que a gravidade não existe, ela continuará aqui, e em todo lugar, da mesma forma como sempre esteve, continuará exercendo sua força sobre mim, quer eu goste ou deixe de gostar, quer eu acredite ou não. Assim é a Verdade, quer eu a conheça ou não, quer eu dê crédito a ela ou não, ela sempre permanecerá a mesma, sempre me confrontará, quer eu goste ou não.
O modelo de sociedade na qual vivia o homem antigo, amarrado à tradição e à autoridade, já não satisfaz mais ao homem moderno, já não basta ouvir sobre a verdade, cada um deseja alcançá-la com as próprias forças, com os próprios métodos, e, bom seria se todos a alcançassem realmente. Mas não é isso o que temos visto. Cada dia mais surgem novas interpretações, novas "visões" sobre o mundo e a verdade que o controla. Surgem céticos extremistas, que duvidam até mesmo da existência de qualquer realidade, e crentes extremistas, que se apegam a qualquer calafrio como se fosse a maior experiência mística da humanidade.
Se surgem tantas "verdades", e sabemos que toda verdade exclui o que lhe é contrário, então o que temos visto surgir não são verdades, mas sim distorções, mentiras, enganos, uns mais intensos, outros mais superficiais, mas todos, enganos.
A verdade é que as pessoas não estão na busca pela Verdade Pura, antes, buscam idéias e doutrinas que se conformem a si mesmas, tornando seus erros mais "certos", e seus defeitos mais "aceitáveis". No fundo, o homem sabe que a verdade só pode ser uma, e que reconhecer essa Verdade os obrigaria a assumir uma posição de "amigo" ou "inimigo", por isso, buscam ilusões.
Abandonar a tradição e a submissão já foi uma necessidade, mas agora que conseguimos, se nossa mente continuar como a mente de alguém tradicionalmente submisso, não estaremos melhor que antes, pelo contrário, estaremos andando para trás, pois antes pelo menos tínhamos quem nos guiasse, e agora vivemos cada um do seu jeito, e o que é pior, na maioria das vezes do jeito errado. Se queremos continuar livres das antigas algemas, então precisamos desenvolver uma mente ágil, sincera, aberta, e aí finalmente encontraremos a Verdade, e como ela é Una, chegaremos todos juntos e em segurança ao mesmo bom lugar de paz. Se a humanidade, porém, insistir em permanecer com a mente pequena, fuigr da tradição e da autoridade será apenas uma desculpa para não se conformar com a realidade que muitas vezes mostra nossos erros e nossas fraquezas sem qualquer piedade.
Mas, antes de terminar, ainda fica na minha cabeça uma dúvida: será que todos os homens são capazes de ter uma mente que consegue encontrar a verdade por conta própria? Ou ainda, será que os que necessitam de guias e mestres, algum dia deixarão de existir? A resposta para essa pergunta é difícil, por que de uma forma ou de outra nos leva a outra questão muito mais polêmica: somos todos iguais?
Bom, não tenho a resposta para essas perguntas, mas sei que não podemos ficar sobre o muro da indecisão entre a tradição e a descoberta, porque se ficarmos, todos correrão para uma direção diferente, e quando o inverno violento do individualismo chegar, morreremos todos sozinhos e gelados, tão longe da Verdade que talvez nem mais possamos lembrar o que essa palavra significa.

Um comentário:

  1. Olá: Gostei desse tema.
    Mas apesar de muitos buscarem o conhecimento, gerando assim muitas dúvidas, sem saber quem estar certo ou errado. Todos nós somos e sempre seremos submissos ao sistema politico/religioso, quer goste ou não.

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