
Não sei bem quando foi a primeira vez que vi uma concha do mar, mas desde que me lembro, sempre as achei interessante. Especialmente quando meus pais me disseram que se as aproximasse do ouvido escutaria o mar lá dentro... que idéia legal! Quando ouvi isso fiquei pensando como seria possível... será que o som teria sido colocado lá pelas sereias? Sei que isso parece ridículo, mas pensei mesmo nisso... rsrsrsrs.
Pouco tempo depois meu pai me contou que na verdade aquilo era só o som do ar passando pela concha. Fiquei com o pé atrás, achei que meu pai estivesse mentindo. Depois, descobri que o mesmo som se podia ouvir nos copos, nas xícaras, nos canos, e até mesmo nas mãos, se posicionadas do jeito certo. Daí concluí que não poderia ser obra das sereias... afinal de contas, elas não frequentavam os ármarios de louça, nem os canos, e muito menos minhas mãos. A notícia não me deixou triste, pelo contrário, logo percebi que poderia escutar o som onde quisesse, independente de ter ou não uma concha, e isso pra mim era algo muito bom, já que morava distante da praia.
E o que as conchas tem a ver com a fé? Nada. Mas a forma como costumam tratar a fé é muito semelhante à forma com que tratei as conchas. As pessoas ouvem a Palavra, creêm e passam a seguir sua nova religião. Logo, são ensinadas que precisam "sentir" a presença de Deus. Frases como: "se você não sentiu a presença de Deus venha aqui que eu quero orar por você" começam a fazer parte do dia a dia do novo convertido. Essas frases não possuem má intenção, e nem qualquer erro em si mesmas, mas o sentido, a lição embutida nelas é um tanto quanto venenosa para a fé ainda recente.
Desde muito novos, os cristãos modernos têm sido indiretamente ensinados que "sentir" Deus é a prova de sua presença e atuação, e que se não sentem nada, então devem ter algum problema, algum pecado, algum erro, alguma coisa que atrapalhe o "sentimento" de se manifestar. Isso é perigoso por dois motivos básicos:
1) A fé nos sentimentos não é fé. De acordo com a Bíblia, a fé é "o firme fundamento das coisas que se esperam, e a certeza das coisas que não se veêm", assim, se posso perceber com meus sentidos orgânicos (tato, olfato, paladar, visão e audição), então deixa de ser algo que espero ou que não vejo, pois se posso tocar ou sentir, então está ao meu alcance, não preciso mais esperar. Se colocar a base da minha confiança, da minha crença, nos meus sentimentos, então acabo por destruir a minha fé. Se vejo, sinto ou toco, logo, não há mais fé.
2) Os sentimentos podem ser alterados por razões orgânicas. Nem preciso citar os nomes das centenas de alucinógenos capazes de mudar o estado de consciência e o humor do ser humano. As substâncias capazes de alterar os sentimentos humanos são tantas, e agem de formas tão diferentes que muitas vezes até mesmo coisas costumeiras, que comemos durante o dia podem influenciar nosso "estado de espírito". É ingenuidade demais acreditar que os nosso sentimentos são exclusivamente "sobrenaturais", se fosse assim, não encontraríamos qualquer coisa parecida com nossos sentimentos entre os animais, mas não é isso o que vemos. Se possuímos um corpo, é mais que óbvio que todas as reações causadas pelo espírito tenham meios químicos de se manifestarem em nós, assim como também, é óbvio que os meios químicos podem influenciar nosso "estado de espírito". Se somos um único ser (e isso é inegável), embora possamos ser corpo, alma e espírito, ou somente corpo e alma, ou seja lá como querem chamar, somos uma coisa só, estamos totalmente ligados a nós mesmos, o que significa que to
das as partes influenciam-se mutuamente. Em outras palavras: meus sentimentos podem ser influenciados pelo meu espírito, tanto quanto pela barra de chocolate que acabei de comer... E se meus sentimentos são tão facilmente influenciáveis, não podem ser a base de algo tão importante como a fé.
das as partes influenciam-se mutuamente. Em outras palavras: meus sentimentos podem ser influenciados pelo meu espírito, tanto quanto pela barra de chocolate que acabei de comer... E se meus sentimentos são tão facilmente influenciáveis, não podem ser a base de algo tão importante como a fé. Assim como o "som do mar" se reproduz nas conchas do mar, mas também pode ser reproduzido por um copo de vidro, que nunca esteva na praia, os "sentimentos" que os cristãos experimentam nem sempre são exclusivos dos cristãos. Existem seguidores de outras religiões que experimentam sensações muito parecidas, e algumas vezes até mais intensas. Digo isso porque já foram realizados testes nesse sentido e as reações químicas que aconteciam em cristãos eram as mesmas produzidas por algumas substâncias e também pela meditação transcendental.
Atentem, porém, para o fato de que não estou querendo dizer com isso que todas as religiões são iguais e produzem o mesmo resultado. Só quero dizer que quando confiamos unicamente em nossos sentimentos podemos ser enganados pelo "truque da concha", que também pode ser o "truque do copo". É por isso que não podemos confiar nos sentimentos como o termômetro da nossa vida espiritual. Talvez, a chave para compreender onde está a verdadeira experiência, de onde vem o verdadeiro "som do mar", não seja o que se pode ouvir, mas o que se pode produzir. Pela árvore conhecemos o fruto. Uma religião que valoriza a experiência, ao ponto de tornar seus seguidores apaixonados pelos próprios sentimentos, não é nada mais que uma ilusão desenfreada, que torna o homem menos que um animal regido por instintos. Se, porém, vimos a produção de um controle, cada vez mais coerente e equilibrado dos sentimentos, então teremos encontrado a Verdade. E, para mim, é aí que reside a diferença entre a concha, o copo e o verdadeiro mar: só um deles produz a realidade acompanhada da sensação, e não o inverso.
As experiências que temos são válidas, os sentimentos que experimentamos são reais, embora possam ser causados por múltiplas causas diferentes, espirituais ou químicas. Mas nunca devemos nos deixar guiar unicamente pelos sentimentos, especialmente quando o assunto é a crença ou não em uma determinada doutrina, ou ainda, uma decisão importante para a nossa vida (em todas as áreas). Se os nossos sentimentos são tão facilmente mudados e enganados, não podemos confiar nos mesmos, precisamos de algo mais firme, mais inabalável, mais consistente e permanente. E é aí que nos deparamos com a Palavra de Deus, que permanece viva e eficaz.
É na Palavra que encontraremos a base firme para comparar o que é certo com o que é errado. É a Palavra que serve como "vara de medir", como modelo, como molde para os nossos pensamentos e sentimentos. Mas isso não vem de um suicídio mental ou coisa semelhante, mas sim da observação de que o que Nela se contêm, é praticável, razoável e agradável. Mas mesmo assim a escolha continuará sendo sempre nossa:

Ouvir a Palavra e seguir a Verdade,
ou
Encostar os ouvidos em uma concha e seguir o canto das sereias...










